
Uma substância estudada há quase três décadas no Brasil surge como uma nova esperança para vítimas de lesões na medula — embora ainda esteja nas fases iniciais dos testes clínicos.
Trata-se da polilaminina, versão derivada da laminina — uma proteína produzida naturalmente pelo nosso corpo — e que foi desenvolvida pela Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ).
No início deste ano, o medicamento foi autorizado pela Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) a iniciar a fase 1 de estudos clínicos.
Essa é a primeira etapa necessária para avaliar com rigor uma substância antes que ela possa ser comercializada no país. Ainda será preciso passar por outras duas fases para avaliar a segurança e a eficácia da molécula, algo que pode levar alguns anos.
A autorização para o início dos testes é considerada um marco para pesquisadores que investigam a molécula há muitos anos e têm obtido resultados promissores em modelos experimentais para tratar lesões medulares.
“Neste momento, não tenho certeza absoluta ainda que estaremos diante de algo espetacular, mas isso é possível”, destaca a professora e pesquisadora Tatiana Sampaio, que lidera as pesquisas na UFRJ.
Apesar de ainda estar longe de ter uma autorização para ser comercializada e usada em tratamentos, pessoas com diferentes tipos de lesão na medula têm obtido acesso ao tratamento por meio de liminares expedidas pela Justiça e têm relatado bons resultados.
Um caso recente foi o da nutricionista Flávia Bueno, de 35 anos, que ficou tetraplégica após sofrer um acidente ao mergulhar no mar nos primeiros dias do ano. Após a aplicação da proteína, em 23 de janeiro, no Hospital Albert Einstein, em São Paulo, onde ela está internada, a nutricionista voltou a mexer o braço direito, segundo sua família.
O que é a polilaminina e como ela funciona?
A polilaminina é um composto recriado em laboratório a partir da laminina, uma proteína produzida pelo nosso corpo, principalmente na placenta.
Ela é muito presente durante a formação e o desenvolvimento do embrião, onde exerce papel fundamental na organização dos tecidos e no crescimento celular.
Segundo Sampaio, a laminina é uma proteína muito “potente” e desempenha diversas funções importantes no sistema nervoso, “dentre elas fazer o crescimento dos axônios, a parte do neurônio que é rompida em uma lesão medular”.
Como um complexo de moléculas de laminina, a polilaminina funcionaria como uma espécie de andaime, ao oferecer suporte para que células nervosas da medula lesionada reconstruam os axônios — um mecanismo que foi observado em modelos experimentais.
“Você tem uma proteína que já é muito poderosa, e temos ela agora em uma forma, vamos dizer assim, melhorada em laboratório”, descreve Sampaio.
Rogério Almeida, vice-presidente de Pesquisa e Desenvolvimento da farmacêutica Cristália — que trabalha junto com a UFRJ na produção do medicamento —, explica que a polilaminina não é uma proteína recombinante, ou seja, feita 100% em laboratório.
Para obter a proteína em sua forma mais próxima da estrutura humana, ela é extraída da placenta, um material naturalmente rico em laminina.
Segundo Almeida, esse processo é feito por meio de parcerias da Cristália com alguns hospitais do interior de São Paulo, onde gestantes são convidadas a doar a placenta, material que geralmente é descartado após o parto.
“Durante o pré-natal, a gente apresenta um projeto para essas parturientes, e elas se dispõem a doar a placenta. A gente acompanha a saúde dessas mulheres para entender que a placenta que elas vão doar é saudável, para garantir que não vou trazer nenhum vírus dessas doadoras para o produto final.”
A partir daí, inicia-se o processo de extração e purificação da laminina, separando-a de outras proteínas presentes na placenta.
Esse produto final purificado vai ser usado para produzir a polilaminina, um processo que, segundo Almeida, só acontece no centro cirúrgico, no momento da aplicação na medula do paciente.
“São enviados dois frascos para o centro cirúrgico. Daí o médico mistura o diluente com a laminina.”
Segundo o especialista, isso permite que as lamininas se organizem e formem uma espécie de “rede” no local onde elas serão aplicadas — geralmente no trecho acima e abaixo de onde ocorreu a lesão na medula.




